Tuesday, October 02, 2007

29.04.2004




















Finalmente escrevo. Decidi o fazer porque a minha memória tem lapsos e porque, sobretudo, teimo em não apreender à custa das minhas experiências. Porque apreender é isso mesmo. Como uma vez concluí [e nisso ainda estou de acordo comigo mesmo] a maturidade não se adquire com muitas vivências, mas com aquilo [e isso é mais difícil] que conseguimos apreender com as mesmas. E nisso sou teimoso. As bases da minha estrutura emocional e social são demasiado afectadas pela excessiva incapacidade que possuo em apreender. Espero, como agora o faço enquanto escrevo, encontrar, a toda a hora enquanto penso para comigo mesmo, a insubstituível parcela ou fracção que teima em faltar para completar, com sucesso, a terrível equação que resolve a compreensão da vida, como se isso realmente existisse, como se isso fosse realmente possível. Ao longo dos últimos anos, fui acrescentando variáveis, parcelas, fazendo arredondamentos e aproximações para obter a equação perfeita. O problema não foi a satisfação que já senti no passado com o resultado alcançado do meu esforço, o problema, e esse é-o verdadeiramente grave, é, hoje, enquanto escrevo, ter a noção te ter perdido essa satisfação, ou, pior ainda, saber que quando releio na minha cabeça os parcos ensinamentos que dei a mim próprio em termos do que é a vida, estes não me terem agora para mim qualquer significado, como se tivessem sido escritos numa língua estranha, vazia de qualquer significado. Sinto-me sem valores. É esse o meu problema e acho-o terrível.

Não sei quando é que me deparei com o abismo interno que sinto dentro de mim, não sei quando foi a primeira vez que senti vertigens por olhar cá para dentro. Isso mesmo, sinto-me à beira de um abismo, sem motivos para tal. É neste momento que sinto então a inicuidade dos meus valores, daquilo que demorei tanto a construir, e que nada parecem valer neste momento. Pelo menos reconheço a falta de motivos. Talvez seja um ponto de partida. O pior é que não me sinto em condições de partir, de tentar começar de novo com uma perspectiva mais ampla e menos pesada do que aquela que me caracteriza. Parte dessa dificuldade reside no facto de a minha mente calculista e programada teimar em tentar resolver a “tal” equação antes de tentar chutar a bola para a frente. O problema está, e isso é para mim muito díficil, em não conseguir resolver a equação, e como tal, não parto para a frente. Isso seria, para mim, como tomar banho de chuveiro pela manhã e vestir-me para ir trabalhar sem tirar sequer o pijama. Sentir-me-ia desconfortável, mas muito pior do que isso e isso nada tem a ver com conforto, não compreenderia a razão dos meus problemas nem das suas soluções, o que me deixaria propenso ao mesmo erro e falta de solução. Por isso teimo em tentar resolver a equação, perceber o meu mecanismo, porque só assim, e nisso acredito, poderei estar em condições de me estruturar de apreender com a experiência. De ter maturidade.

Sempre fui instrospectivo. Sempre pensei muito para com os meus botões. Há alguns anos atrás, cheguei à conclusão [se é que alguma vez se pode concluir sobre o tema] que o segredo da vida era as pessoas. Sim, as pessoas. Somos apenas um resultado de combinações de probabilidades inerentes à genética, à causualidade, ao acaso, a tantas outras coisas. E mesmo assim, depois de muito e tanto tempo, desde que emergiu a vida neste planeta, nascemos e vivemos. O mais fantástico disso tudo é que amamos e odiamos o ser humano. Muito embora, perdamos muito tempo com o materialismo [e só se incomoda com tal quem se pode dar ao luxo de não o ser], o que realmente conta, o que realmente irá contar no final da vida, de certeza não vai ser tudo o que possuímos ou deixamos de possuir materialmente, o que realmente irá contar serão todas as pessoas que amamos que deixaremos para trás ou todas aquelas que já o fizeram connosco que durante a nossa vida se cruzaram connosco. Parece óbvio. Mais um lugar comum, mas pelo menos é uma peça da equação que tanto me satisfez por tanto tempo e que agora é apenas mais uma daquelas que nada me diz.

Estou sozinho. O relógio marca 14:10. Estou sozinho, sinto-me sozinho. Quando não me tenho a mim próprio, não consigo mesmo ter mais ninguém. Não me tenho a mim prório e por isso, nos momentos de solidão, sinto uma enorme vontade de simplesmente desaparecer. Deixar passar o tempo. Como passar o tempo fosse solução para ultrapassar o que sinto. Num local seguro, seguro aos meus olhos, ao meu passado de vida. Regressar a Portugal, porque a saudade também não ajuda e sobretudo mina-me num momento de fraqueza como este. Falar com a família, amigos, recuperar o fôlego perdido, ganhar forças para aquilo que me decidi fazer daqui para a frente. O fôlego que não consegui ganhar antes de vir para a I.. E porquê? Talvez porque sofresse por antecipação, talvez porque já tivesse em mim o germe da minha enorme confusão. Não me lembro de me sentir assim. Não sei se é esgotamento ou depressão. Tenho que me decidir ou por uma ou por outra. Não posso ter as duas. É como ser--se perneta e paralítico ao mesmo tempo. Não dá. Sinto-me vulnerável e fraco. Sem motivação sequer para levar a porra da vida para a frente. Até parece que tenho algum problema grave, que sei que não tenho.

Não telefono para casa. Nem sequer quero preocupar ningém em casa. Porque sei que toda a gente se preocuparia comigo, mas também sei que ninguém me poderia acudir. Não me sinto confortável com os amigos. Não gosto de dar parte fraca, Se calhar, porque sempre ou quase sempre demonstrei ser forte. Esta coisa de ser macho. Muito embora só tenha medo do desconhecido, sem coragem sequer para colocar um pé fora de casa. Não falo do meu quarto aqui nesta parvónia, falo, isso sim, da casa lá atrás em Portugal. Nem sequer tenho coragem de sair dela. O problema é que a mesma ficou no sítio, e o meu sítio não é esse. Só me apetece enfiar num buraco. Fiquei no escritório esta tarde. Podia ter regressado ao acampamento, ao quarto onde durmo. Tive a esperança de encontrar a A. no messenger. Sem sucesso. Mandou-me à fava? Nem por isso. Está numas termas sem mim. Custa ainda mais, sabermos que o nosso estado de espírito afecta negativamente e de forma profunda aqueles que amamos. Aconteceu isso com ela. Por isso, está melhor sem mim lá. Só nestes momentos, me dou conta do pouco que valho, das consequências que gero e da instabilidade que crio. A sinergia da desilusão alheia e o meu estado de espírito só me dá raiva. Mas mesmo assim, sinto-me como me sinto. Reagir! Fodas, dizer é fácil, faze-lo é que é fodido, porque se fosse fácil não estava aqui com estas lamechices. Não compreendi estes estados de espírito nas pessoas alheias, pareciam-me a mim que não compreendiam o óbvio. Se algum dia imaginasse que iria estar como hoje estou…

1 comment:

Xico said...

Quero acreditar que falas num passado que já passou. Porque num presente que está a passar, não deves ter pejo de saberes com quem podes contar nas horas de solidão e autoflagelação... Também é para isso que servem os amigos. Mesmo que eles se sintam como tu!!!